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quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Som Noventa





Em um momento onde a música brasileira está sendo aos poucos devastada pelos tubarões das grandes gravadoras, que não entendem nada de música mas lhes sobra apreço pelo apelo aos hormônios juvenis criando novos Beatles de calça colorida e o cabelo pranchado com uma qualidade infinitésimamente inferior aos garotos de Liverpool e toda a quantidade de cifras que essa anti-música gera explorando o orçamento de pais cansados de tanta tralha que a tv enfia goela abaixo dessas crianças, decidi escrever essa primeira coluna como um manifesto, não que eu queira pra mim o título de novo Antônio Maria que batia pesado na turma da Bossa, até mesmo por que esses garotos não tem a genialidade de meio Menescal, Lyra, Nara e companhia.

Sou da geração dos anos noventa saca, neoliberalismo adoidado no mundo e no Brasil mais violento ainda por conta de nosso "terceiro-mundismo" as mazelas sociais ainda hoje presentes começavam a despontar no horizonte para uma geração de músicos que vivenciaram a anistia, greves operárias e a abertura lenta e gradual sem ter voz para suas denúncias.

Esses músicos apareceram para trazer a juventude dos anos 90 oportunamente uma nova idéia sobre consciência e juventude e solidificar a idéia crítica que construíamos de um país que mesmo democrático sofria com as consequências de uma longa e tenebrosa ditadura civil-militar.

Afirmo ainda que esses músicos vieram para testar se essa democracia a caminho de se consolidar comportava o peso de décadas de mordaça, décadas de exclusão e com a proposta de uma nova utilização da globalização que daria orgulho a Milton Santos.

Não podemos falar da música brasileira dos anos 90 sem falar sobre a trindade nem tão santa de ORappa, Planet Hemp e Chico Science e Nação Zumbi.

Fazendo muito mais que só música de protesto, salada mista de ritmos afros do mundo todo, uma rapaziada do subúrbio ganhou o país com suas denuncias que vinham do outro lado do véu que divide a cidade do Rio de Janeiro e todo um país.

A beleza lírica das composições dos "Marcelos" Falcão e Yuka que impressionam pela sutileza-ácida somado a um baixo pesado e envolvente que insinua o espírito do engajamento político e espiritual de seus integrantes fez com que esse banda se tornasse uma das mais importantes da época.

Tudo isso foi o que o ORappa representou de 1994 até hoje para a história da música popular brasileira, sem nenhum estilo definido mas com uma linguagem absoluta, que serviu para que conseguíssemos pensar num som político que desmistificasse a velha e por vezes demagoga visão idílica da miséria, construída pelos intelectuais de esquerda dos anos 60 que se serviram da miséria sem vislumbrar a sua verdadeira face ao retrata-la nas músicas de uma vez por todas.

Com uma linguagem peculiar um power trio de músicos, mais um power trio de MC's decidiram testar os limites da nossa nova democracia quando tiveram a iniciativa de gritar pela legalização já, da liberdade de expressão há muito esquecida e fizeram usos e abusos da fusão rap-rock iniciada em Walk this Way para rasgar o verbo contra a imoralidade e hipocrisia dos políticos da época e pela liberação do uso da cannabis no Brasil.

Planet Hemp, com o melhor time instrumental que esse país viu, riffs carregados de inspiração setentista, grooves na pressão e psicodelismo além de ter B. Negão Black Alien e Marcelo D2 nos vocais com letras que blasfemavam contra os velhos padrões e os plurais porões da nossa consciência democrática, conceito que engatinhava ainda no país marcaram a época espancando a face do bom mocismo.

De Recife veio um furacão tropical chamado Chico Science e Nação Zumbi, punk-rock e maracatu, metal e baião regidos por um gênio e músicos sem par no quesito criatividade e uma influência tropicalista indiscutível.

 O que falar dessa banda, o que falar dessa apresentação no encarte do CD Afrociberdelia de 1996;

 " (Extraído da ENCICLOPÉDIA GALÁCTICA, volume LXVII, edição de 2102).

AFROCIBERDELIA (de África + Cibernética + Psicodelismo) – s.f. – A arte de cartografar a Memória Prima genética (o que no século XX era chamado “o inconsciente coletivo”) através de estímulos eletroquímicos, automatismos verbais e intensa movimentação corporal ao som de música binária.

Praticada informalmente por tribos de jovens urbanos durante a segunda metade do século XX, somente a partir de 2030 foi oficialmente aceita como disciplina científica, juntamente com a telepatia, a meta física e a psicanálise.

Para a teoria afrociberdélica, a humanidade é um vírus benigno no software da natureza, e pode ser comparada a uma Árvore cujas raízes são os códigos do DNA humano (que tiveram origem na África), cujos galhos são as ramificações digitais-informáticas-eletrônicas (a Cibernética) e cujos frutos provocam estados alterados de consciência (o Psicodelismo).


No jargão das gangs e na gíria das ruas, o termo “afrociberdelia” é usado de modo mais informal:


a) Mistura criativa de elementos tribais e high-tech:

“Pode-se dizer que o romance The Embedding, de Ian Watson, é um precursor de ficção-científica afrociberdélica”.


b) Zona, bagunça em alto-astral, bundalelê festivo:

“A festa estava marcada pra começar as dez, mas só rolou afrociberdelia lá por volta das duas horas da manhã”."


É por conta dessas obras primas que eu exponho meu ponto de vista que muitos podem julgar saudosista e eu não nego,é isso mesmo sou saudosista mas quero ver quem refute a importância dessas três bandas para toda uma geração dos anos 90 e a construção de uma visão mais crítica e participativa acerca da realidade do país e do mundo dessa geração.

Isso por que deixei de lado o sacana forró-core dos Raimundos, o dancehall clube da esquina do Skank, também o pop e depois anti-pop Los Hermanos e uma porrada de bandas que ficaram perdidas pelo caminho.

Quando Lobão criticou o som dessa molecada nova dizendo lhes faltava "paudurescência" ele até pode ter errado na forma como dirigiu essa crítica mas entendi ali a indignação de sua pessoa com a falta de atitude sonora dessa rapaziada, atitude é o motor da história da música brasileira e sempre será e me causa um certo estranhamento a falta de atitude desses jovens, a rebeldia já vem hoje em dia formatada.

Me parece é que para algumas dessas bandas aparecer a todo custo fica acima da musicalidade e eles se perderam no fluorescência do glitter de seus óculos new wave iludidos por um sucesso que para todo bom entendedor de música é mais passageiro que meteoros da paixão.

Falta a esses moleques ouvir a trindade dos anos noventa!

Fecho a coluna com um pensamento meu ao ouvir falar de Fresno, Replace, Restart e companhia pela primeira vez: "Porra e onde fica o Delete!?"


Victor Ajami Minkah, é professor de história e no momento está procurando uma saída para a imbecilização coletiva,sem sucesso até o presente momento.



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