Em um momento onde a
música brasileira está sendo aos poucos devastada pelos tubarões das grandes
gravadoras, que não entendem nada de música mas lhes sobra apreço pelo apelo
aos hormônios juvenis criando novos Beatles de calça colorida e o cabelo
pranchado com uma qualidade infinitésimamente inferior aos garotos de Liverpool
e toda a quantidade de cifras que essa anti-música gera explorando o orçamento
de pais cansados de tanta tralha que a tv enfia goela abaixo dessas crianças,
decidi escrever essa primeira coluna como um manifesto, não que eu queira pra
mim o título de novo Antônio Maria que batia pesado na turma da Bossa, até
mesmo por que esses garotos não tem a genialidade de meio Menescal, Lyra, Nara
e companhia.
Sou da geração dos
anos noventa saca, neoliberalismo adoidado no mundo e no Brasil mais violento
ainda por conta de nosso "terceiro-mundismo" as mazelas sociais ainda
hoje presentes começavam a despontar no horizonte para uma geração de músicos
que vivenciaram a anistia, greves operárias e a abertura lenta e gradual sem
ter voz para suas denúncias.
Esses músicos
apareceram para trazer a juventude dos anos 90 oportunamente uma nova idéia
sobre consciência e juventude e solidificar a idéia crítica que construíamos de
um país que mesmo democrático sofria com as consequências de uma longa e
tenebrosa ditadura civil-militar.
Afirmo ainda que
esses músicos vieram para testar se essa democracia a caminho de se consolidar
comportava o peso de décadas de mordaça, décadas de exclusão e com a proposta
de uma nova utilização da globalização que daria orgulho a Milton Santos.
Não podemos falar da
música brasileira dos anos 90 sem falar sobre a trindade nem tão santa de
ORappa, Planet Hemp e Chico Science e Nação Zumbi.
Fazendo muito mais
que só música de protesto, salada mista de ritmos afros do mundo todo, uma
rapaziada do subúrbio ganhou o país com suas denuncias que vinham do outro lado
do véu que divide a cidade do Rio de Janeiro e todo um país.
A beleza lírica das
composições dos "Marcelos" Falcão e Yuka que impressionam pela
sutileza-ácida somado a um baixo pesado e envolvente que insinua o espírito do
engajamento político e espiritual de seus integrantes fez com que esse banda se
tornasse uma das mais importantes da época.
Tudo isso foi o que o
ORappa representou de 1994 até hoje para a história da música popular
brasileira, sem nenhum estilo definido mas com uma linguagem absoluta, que
serviu para que conseguíssemos pensar num som político que desmistificasse a
velha e por vezes demagoga visão idílica da miséria, construída pelos
intelectuais de esquerda dos anos 60 que se serviram da miséria sem vislumbrar
a sua verdadeira face ao retrata-la nas músicas de uma vez por todas.
Com uma linguagem
peculiar um power trio de músicos, mais um power trio de MC's decidiram testar
os limites da nossa nova democracia quando tiveram a iniciativa de gritar pela
legalização já, da liberdade de expressão há muito esquecida e fizeram usos e
abusos da fusão rap-rock iniciada em Walk this Way para rasgar o verbo contra a
imoralidade e hipocrisia dos políticos da época e pela liberação do uso da
cannabis no Brasil.
Planet Hemp, com o
melhor time instrumental que esse país viu, riffs carregados de inspiração
setentista, grooves na pressão e psicodelismo além de ter B. Negão Black Alien
e Marcelo D2 nos vocais com letras que blasfemavam contra os velhos padrões e
os plurais porões da nossa consciência democrática, conceito que engatinhava
ainda no país marcaram a época espancando a face do bom mocismo.
De Recife veio um
furacão tropical chamado Chico Science e Nação Zumbi, punk-rock e maracatu,
metal e baião regidos por um gênio e músicos sem par no quesito criatividade e
uma influência tropicalista indiscutível.
O que falar dessa banda, o que falar dessa
apresentação no encarte do CD Afrociberdelia de 1996;
" (Extraído da ENCICLOPÉDIA GALÁCTICA,
volume LXVII, edição de 2102).
AFROCIBERDELIA (de África +
Cibernética + Psicodelismo) – s.f. – A arte de cartografar a Memória Prima
genética (o que no século XX era chamado “o inconsciente coletivo”) através de
estímulos eletroquímicos, automatismos verbais e intensa movimentação corporal
ao som de música binária.
Praticada
informalmente por tribos de jovens urbanos durante a segunda metade do século
XX, somente a partir de 2030 foi oficialmente aceita como disciplina
científica, juntamente com a telepatia, a meta física e a psicanálise.
Para a teoria
afrociberdélica, a humanidade é um vírus benigno no software da natureza, e
pode ser comparada a uma Árvore cujas raízes são os códigos do DNA humano (que
tiveram origem na África), cujos galhos são as ramificações
digitais-informáticas-eletrônicas (a Cibernética) e cujos frutos provocam
estados alterados de consciência (o Psicodelismo).
No jargão das gangs e
na gíria das ruas, o termo “afrociberdelia” é usado de modo mais informal:
a) Mistura criativa
de elementos tribais e high-tech:
“Pode-se dizer que o
romance The Embedding, de Ian Watson, é um precursor de ficção-científica
afrociberdélica”.
b) Zona, bagunça em
alto-astral, bundalelê festivo:
“A festa estava
marcada pra começar as dez, mas só rolou afrociberdelia lá por volta das duas
horas da manhã”."
É por conta dessas
obras primas que eu exponho meu ponto de vista que muitos podem julgar
saudosista e eu não nego,é isso mesmo sou saudosista mas quero ver quem refute
a importância dessas três bandas para toda uma geração dos anos 90 e a
construção de uma visão mais crítica e participativa acerca da realidade do
país e do mundo dessa geração.
Isso por que deixei
de lado o sacana forró-core dos Raimundos, o dancehall clube da esquina do
Skank, também o pop e depois anti-pop Los Hermanos e uma porrada de bandas que
ficaram perdidas pelo caminho.
Quando Lobão criticou
o som dessa molecada nova dizendo lhes faltava "paudurescência" ele
até pode ter errado na forma como dirigiu essa crítica mas entendi ali a
indignação de sua pessoa com a falta de atitude sonora dessa rapaziada, atitude
é o motor da história da música brasileira e sempre será e me causa um certo
estranhamento a falta de atitude desses jovens, a rebeldia já vem hoje em dia
formatada.
Me parece é que para
algumas dessas bandas aparecer a todo custo fica acima da musicalidade e eles
se perderam no fluorescência do glitter de seus óculos new wave iludidos por um
sucesso que para todo bom entendedor de música é mais passageiro que meteoros
da paixão.
Falta a esses
moleques ouvir a trindade dos anos noventa!
Fecho a coluna com um
pensamento meu ao ouvir falar de Fresno, Replace, Restart e companhia pela
primeira vez: "Porra e onde fica o Delete!?"
Victor Ajami Minkah,
é professor de história e no momento está procurando uma saída para a
imbecilização coletiva,sem sucesso até o presente momento.

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