Salve simpatia, meu computador foi pra vala e perdi meu mp3 mas de certa forma inicio a coluna contente por que ela me fez remexer nos meus discos e cds coisa que eu não fazia há um tempo, fato esse que me deu uma luz sobre o que escrever pra essa terça.
Do nada(como sempre) esfriou em sampa e decidi ouvir uma coisa mais ensolarada pra me livrar da nostalgia dessa Babel e o que achei: A tábua de esmeralda.
Infelizmente não tenho em LP essa obra prima, só em CD(uma parada do século passado) mas não estou falando de qualquer álbum e nem de qualquer músico, Jorge Ben antes de ser Jor, para mim é um dos maiores gênios que a nossa música já produziu e o álbum A tábua de Esmeralda de 1974 é um disco obrigatório em qualquer coleção de discos do mundo, obrigatório na coleção até de quem não gosta de Jorge Ben.
Toda psicodelia que Jorge tinha demonstrado em composições como O homem que matou o homem que matou o homem mau, Descobri que eu sou um anjo, Força Bruta e Porque é proibido pisar na grama, conflui para esse álbum, lançado após o também fantástico e emblemático 10 Anos Depois e antes do mais experimental ainda OgumXangô gravado ao vivo no estúdio com Gilberto Gil.
A tábua de esmeraldas é um dos discos mais importantes e influentes na música brasileira não só porque pode(e deve) ser tocado inteiro em qualquer reunião, festa, balada, casamento e velório e timbragem dos vocais e do violão de Jorge perfeita mas também porque Jorge Ben inicia uma nova fase de sua música influênciado pelos tratados alquímicos, filosofia e psicodelia.
No mesmo ano para termos uma noção saíram Secos & MolhadosII, Linguagem do Alunte e Vamos pro Mundo dos Novos Baianos, Gita do Raulzito, Sinal Fechado de Chico Buarque, Paêbirú de Lula Cortes e Zé Ramalho, Tim Maia (Ir)Racional e Temporada de Verão de Gil, Caetano e Gal isso só no Brasil e o país passava pelo período mais violento e ufanista do regime civil-militar, perseguições, manobras politiqueiras e torturas de sobra ao ponto de até Pelé se recusar a ir a Copa do Mundo pelo uso político da nossa seleção de futebol.
O álbum é pura viagem e começa anunciando que os Alquimistas Estão Chegando na pegada de violão marcante, um coro perfeito e um clipe editado pelo Fantástico na época que vale a pena conferir, segue com a homenagem ao filósofo hermético Paracelso em O Homem da Gravata Florida onde tudo flutua em volta do já citado violão inigualável.
O disco explode num Soul-Samba-Dub(única definição que eu achei) orquestrado que Jorge Ben mesmo explica(ou tenta) que: "procuro mostrar se eram os deuses astronautas ou não. É quase uma mecânica celeste...". Sacou? Não? Ouça o som, uma colega me diz que toda vez que escuta esse som sempre fica curiosa para saber o que acontece depois da contagem regressiva em meio aos reverbs e delays no fim da música, eu sei o que acontece:
Jorge Ben: - Pedrinho vai ser papai!
Corista: - Quem vai ser papai?
Jorge Ben: - Menina mulher preta!
Corista: - Menina mulher da pele preta!?(risos)
Só quem já se apaixonou por uma Menina mulher da pele preta sabe que não tem descrição melhor que esse samba rock, urbano, periférico, respeitoso, cortês e ao mesmo tempo cheio de malícia como a letra mesmo diz.Corista: - Quem vai ser papai?
Jorge Ben: - Menina mulher preta!
Corista: - Menina mulher da pele preta!?(risos)
Na melhor linha Flower Power com um groove fantástico o disco segue com Eu vou torcer pela paz, pela alegria e pelo amor, que vem seguida por Magnólia que começa com a frase com a qual eu definiria essa canção: "O que, que eu quero mais?" e um violão violento com repicadas de banjo na palhetada.
Ai vêm o hino dos eternos apaixonados e não correspondidos porém perseverantes Minha teimosia é uma arma pra te conquistar têm um swing irresistível(tente ficar parado ao ouvir),um coral maravilhoso e uma letra de contundente simplicidade, juvenil bossa- novista que remete as raízes e a escola do cantor.
Para quem diz que Jorge Ben era alienado e estava alheio aos ideais de transformação da sociedade vem o grito de Zumbi um funk protesto, combativo sobre africanidade e afirmação de sua identidade negra seguida do Samba gospel Brother.
Outra homenagem a um alquimista é o samba soul Namorado da viúva inspirado na vida de Nicola Flamel e sua esposa musos de Jorge nas artes da transmutação e a swingadíssima e lindíssima Hermes Trismegisto e sua Celeste Tábua de Esmeralda adaptação da tradução do filósofo Fulcanelli sobre os tratados desse faraó egípcio encontrados na piramide de Gizé pelos soldados de Alexandre o Grande escrita em uma tábua de esmeralda com uma ponta de diamante uma viagem só pela história da música, música essa que faz jus a todo o psicodelismo do álbum.
O álbum é fechado com 5 minutos onde Jorge Ben conta um bolo, uma volta por cima e ainda por cima(redundante mesmo) "metendo uma mala" com um fraseado todo original e pedindo pra swingar a levada até o fim do álbum, sampleada pelo Black Eyed Peas com o nome de Posivty, a orquestração passa a ideia de toda essa positividade presente nessa fase desse mestre que representa para mim brasilidade, versatilidade, malandragem e a arte de se reinventar sempre que isso for absolutamente necessário ou desnecessário, ouçam o álbum todo na sequência e entenderão a minha piração à respeito... sem mais...para sempre, salve Jorge!!!
Victor Ajami Minkah é bicho-grilo por parte de Mãe, sambista por parte de Pai e sempre sonhou em ser igual ao Jorge Ben quando fosse grande.

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