Caro e digníssimo sr.
Saibas que está a beira de um ataque de nervos, ao meu ver parece que isso lhe afeta diretamente o conteúdo das frases presas no bloco de mármore em que foi transformado seu cérebro, por consequência da opressão da gravata, dos gravatas e das calosidades causadas pelo seu sapato de solado duro.
De segunda a sexta transformou-se num zumbi, não fala mais sozinho, não canta baixo e desafinado no ônibus quando uma cena cotidiana lhe estimula, não ri das besteiras ditas pelos seus amigos no passado, não se emociona mais ao sentir um cheiro que o faça lembrar da casa da sua avó e por fim não segue mais sendo o cara desajustado, desajeitado, cheio de dilemas e ditos populares prontos a serem expelidos por mais desgastante que pareça o momento ou a situação.
Resolvi escrever esse desabafo para que você fique ciente de que reprovo totalmente essas atitudes formatadas, muitas vezes me pergunto o que te leva a se anular, anular suas vontades e renegar a liberdade de vontades e sensações a que sempre esteve felizmente condenado?
Vá pro meio do mato, vá para um lugar tranquilo, renove sua mente, renove-se, encontre com vc mesmo de novo como aquele dia de chuva no Viaduto do Chá e ai então poderemos voltar a nós.
Vou agora pra longe, um lugar dentro do infindo labirinto de consciência que você tenta reduzir à uma salinha com quatro cadeiras, uma máquina de xerox, um armário com uns jornais velhos, uma janela com vista para essa Babel cheia de edificações sem alma e nem sonhos, só cimento e concreto por todo lado, uns papeis em branco, uns papés escritos em uma língua totalmente estrangeira à seus ouvido e interesses e uma pessoa normal que você pensa que pode chegar um dia ser um pouco você (ou vc pensa que pode ser um pouco ela)!
Não se engane com a normalidade, ela é perigosa e põe em risco essa multiplicidade que forma sua mente, seu corpo e sua alma e tudo mais o que você tanto admira, se expanta e se impressiona em ver por aí e também põe em risco seu conceito e modo de enxergar e significar a realidade.
Paz...daquele que se move no tempo e no espaço, nunca lhe deixando esquecer quem é, quem foi e o que faz, como faz e por que faz e que por fim sempre retorna pra te encontrar ou se encontrar (confuso, pobre e tosco).

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